quarta-feira, 14 de junho de 2017

Toda a gente sabe que nos blogs não há amigos*

Nos blogs, limitamo-nos a inventar de espanto palavras de maresia, sem cobrar das horas gastas. Nos blogs, limito-me a mentir com (quase) todos os segundos que o tempo tem.
No blog, transgrido em confissões que nunca fiz e persisto no tempo que me falta. No blog, chego a dançar um tango intenso, no convés de um barco que não navego.
Com o blog, partilho palavras comuns e insuspeitas, conheço escritas admiráveis e arrepio-me com novos tons.
Pelos blogs, antecipo autores distintos e absolutos da catarse que vale a pena. Pelos blogs dos meus, chego a antecipar a entrada do dia num novo post.
Os blogs apreciam a distância indelével da corporalidade e mantêm a presença viva do pensamento.
Neste blog, perdi o conto às tardes convividas e às histórias instintivamente tecladas. Senti a cumplicidade do outro lado da distância. Recolhi o que me sobra em pensamentos. Abriguei-me da nostalgia do que já não é e do que me engano.
Este blog dá-me conta de outros cantos, sustenta-se em motes diferentes, tutela estradas, ignora vassalagens prestimosas, aplaude sensibilidades benignas.
Houvesse alma, como há talento, e talvez - nisto dos blogs - existíssemos amigos.

18 comentários:

  1. eu sei-me amiga de pessoas a quem não lhes conheço o rosto, nisto dos blogues. mas também me engano muito, como na vida cá fora, tal e qual :)

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    1. "Nem sempre os que estão mais perto fazem melhor companhia".
      Não é sobre os amigos que há enganos, ana. É sobre os outros.

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  2. Primeiro teríamos que aprofundar qual o verdadeiro significado da palavra "amigo" e caso fosse necessário consultar um bom dicionário de língua portuguesa...mas penso que nisto dos blogues bastava, e não seria pedir muito, que houvesse respeito e bom senso (duas "coisitas", pequenos pormenores portanto, cada vez mais em desuso).(é que uns são uns Senhores e umas senhoras e têm vida e família e emprego e maridos e mulheres e filhos e filhas, para além dos blogues, e os outros segundo estes grandes senhores todos poderosos do blogomundo, têm apenas um "O" na testa, os parolos, e andam para aqui a apanhar bonés, coitaditos).

    De volta, Outro Ente? bem-vindo!

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  3. Caramba, para quê mentir se se pode simplesmente omitir? afinal já não se omite o nome, o endereço, o estado (caótico ahahah)das personagens?

    Deixe-me que lhe diga, que por aqui nos blogues, encontrei gente boa, omitida, que com o tempo demo-nos a cara e até já nos conhecemos, não em almoços (nada contra) visitas da casa mesmo, como se faz aos amigos.

    Fora isso cada um é como cada qual. e siga a música :-))

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    1. noname, já não sei se falamos de "sentir com a imaginação " se de "dois rumos". De todo o modo, dancemos.
      https://www.youtube.com/watch?v=8ZM-a_A4AFY

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    2. A música nem é má mas, pouco dançável. De qualquer modo grata pela intenção :)

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  4. E há um convés onde se dança de alegria pelo seu regresso.

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  5. Só sei que fiquei com um grande sorriso ao lê-lo de novo! Há blogs assim!

    Beijinhos, caro Ente :)

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    1. Assim, é bom regressar.
      Um beijo para si, Maria Eu.

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  6. Caro Outro Ente, esta temática dava pano para teses de mestrado, para jovens psicólogos e sociólogos. Os egos continuam a falar mais alto que a assertividade, o bom senso e a postura do politicamente correto. Já alguém diz que a palavra é de prata e o silêncio é de ouro.
    Não me vou acrescentar, mas também lhe digo que não sou autista relativamente ao seu ponto de vista crítico, ou de realidade nua e crua...
    Que bom voltar a lê-lo, independente dos laço ou falta deles que nos unam.

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    1. Por um lado, somos donos dos nossos silêncios e escravos das nossas palavras, por outro lado, liberdade é podermos escolher as nossas prisões...
      Opto pelo que nos une.
      Noite feliz Sandra Louçano.

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    2. "Liberdade é podermos escolher as nossas prisões..."
      Admirável esta sua afirmação. E explorando temáticas tão profundas como estas, somos obrigados a olhar para dentro de nós, sermos auto críticos, e descobrirmos-nos um pouco melhor.
      Depois de refletir um pouco, descobri que a minha liberdade me aprisiona dentro de mim própria.
      Obrigado Outro Ente, acho que irei dissecar um pouco este tema...
      Bom feriado.

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  7. Caramba... de tão distraída só me dei conta agora do seu regresso :) bem aparecido seja, Outro Ente! É bom poder voltar a lê-lo :))

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    1. Bom dia Olvido. É bom saber que não se esqueceu de mim.

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